Estudo crítico da História do Rio Grande do Sul Parte 14. Por Giovanni Zigotto

A República Rio-grandense.

Partindo do princípio que revolução é o ativismo coletivo que visa a derrubada dos obstáculos que se antepõem à plena realização dos destinos de um povo, a Revolução Farroupilha foi uma reação contra os anos de exploração e abandono das colônias do sul, pois os interesses do Império orbitavam na corte do Rio de Janeiro, inicialmente nos favorecimentos do primeiro Império e da regência e, depois, nas decisões de um jovem imperador altamente influenciável cuja infância solitária fazia com que, cada vez mais, se refugiasse nos livros.

O abandono era de tal ordem que, a exceção de iniciativas esporádicas, o número de salas de aula era praticamente inexistente. A cultura era privilégio dos filhos de ricos estancieiros que podiam financiar a ida destes para a Europa, de onde, ao voltar, traziam o ideário progressista e republicano dos modelos europeus, renegando a própria descendência lusa.  

Enquanto isso, o poder central continuava surdo e cego aos interesses das províncias do sul, uma rica região constantemente assaltada pela ambição dos países vizinhos e pelo extrativismo dos partidários do Império, beneficiados pela farta distribuição de sesmarias, desde o início da colonização. Fator que determinaria o tumultuado decorrer dos quase dez anos de existência da República Rio-grandense.

Em contrapartida, o esforço intelectual dos revolucionários se multiplicava em inúmeras iniciativas culturais como a criação de novas salas de aula, nomeação de professoras e a importante criação da biblioteca nacional, com mais de mil volumes.

Enquanto o Império, em termos de organização jurídica, dividia-se nas ditas “Relações”, a da Bahia, a do Rio de janeiro, a do Maranhão e a do Recife onde sequer existia a justiça de segunda estância, a mentalidade revolucionária provia a organização judiciária da República, onde o juiz de paz, o juiz municipal e o juiz de Direito, formavam as autoridades judiciárias de primeira instância, que incluía até a figura dos juízes intinerantes.

A elite intelectual do Rio Grande de São Pedro elegeu a Assembléia Constituinte em votação ampla ( mas não universal, pois excluía mulheres, escravos, criados e monges ) que compunha-se de 36 deputados.  O projeto de Constituição de República foi redigido por Ulhôa Cintra, Domingos de Almeida, Sá Brito, Mariano de Mattos e Serafim França, autor do título sexto que tratava do Poder Judiciário, por ser renomado advogado.

Enquanto as elites militares e políticas da República ocupavam-se em forjar a organização geral de um novo país e mantinha o domínio da campanha, sofria os reveses das investidas dos Imperialistas no litoral.

Trecho do quadro de Wasth Rodrigues “A batalha dos Farrapos”

A Marinha Imperial Brasileira controlava os principais meios de comunicação da Província, a Lagoa dos Patos, entre Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, e a maior parte dos rios navegáveis. Apesar disso era constantemente atacada pelos farroupilhas, quando próximos aos barrancos dos rios. Em 1° de fevereiro de 1838, uma tropa de dois mil farrapos e uma bateria de artilharia conseguiram atacar de surpresa duas canhoneiras e um lanchão no rio Cai, matando quase todos os marinheiros e aprisionando um dos comandantes.
O fator estratégico de maior efeito a favor do Império era o bloqueio da barra da Lagoa dos Patos, único acesso ao porto de Rio Grande, por onde desembarcavam continuamente os reforços imperiais, e ao mar. A República, na segunda parte do confronto procurava manter a supremacia conquistada na região geográfica da serra do sudeste do Rio Grande do Sul, de relevo irregular e com apenas um rio que comunicava com a Lagoa dos Patos, o Camaquã.
Foi preciso engendrar uma manobra incomum para conquistar um ponto que pudesse ligar o Rio Grande dos farrapos com o mar. Este ponto era Laguna, em Santa Catarina. O primeiro passo era constituir a Marinha Rio-Grandense. Giuseppe Garibaldi conhecera Bento Gonçalvesainda em sua prisão, no Rio de Janeiro, e obteria dele uma carta de corso para aprisionar embarcações imperiais. Em 1° de setembro de 1838, Garibaldi foi nomeado capitão-tenente, comandante da marinha Farroupilha.
Foi criado um estaleiro, junto a uma fábrica de armas e munições em Camaquã, na estância de Ana Gonçalves, irmã de Bento Gonçalves. Lá Garibaldi coordenou a construção e o armamento de dois lanchões de guerra. Ao mesmo tempo, Luigi Rossetti foi a Montevidéu, buscar a ajuda de Luigi Carniglia e outros profissionais indispensáveis. Após algumas semanas, estava completa a equipagem de mestres e operários. Alguns marinheiros vieram de Montevidéu e outros foram recrutados pelas redondezas.

Os imperiais, informados dos planos farrapos, atacaram o estaleiro de Camaquã, comandados por Francisco Pedro de Abreu, o Chico Pedro, também conhecido por Moringue. Eram mais de uma centena de homens, cercando o galpão com 14 trabalhadores entrincheirados. Giuseppe Garibaldi comanda a resistência durante horas. Quase ao anoitecer, Moringue precipitou-se do esconderijo e levou um tiro no peito, sendo recolhido por seus companheiros, fugindo tão rapidamente quanto chegaram.

Garibaldi liderando a expedição à Laguna (Lucílio de Albuquerque).

 

O Seival

Terminada a construção dos barcos e lançados à água, os lanchões Seival e Farroupilha, cortando as águas da Lagoa dos Patos, acuados pela armada de John Grenfell, não tiveram muito sucesso: capturaram alguns barcos de comércio desprevenidos, em lagoas ou rios longe da armada imperial. Surgiu, então, o plano de levar os barcos pela Lagoa dos Patos até o Rio Capivari e, dali, por terra, sobre rodados especialmente construídos para isso, até a barra do Tramandaí, onde os barcos tomariam o mar. Assim foi feito, mas não sem dificuldades.
Os Farrapos, despistando a armada imperial, conseguiram enveredar pelo estreito do rio Capivari e passaram os barcos a terra em 5 de julho de 1839. Puxando sobre rodados, os dois lanchões artilhados, com cem juntas de bois, atravessaram ásperos caminhos, pelos campos úmidos - em alguns trechos completamente submersos, pois era inverno, tempo feio com chuvas e ventos, tornando o chão um grande lodaçal. Cada barco tinha dois eixos e, naturalmente, quatro rodas imensas, revestidas de couro cru. Piquetes corriam os campos entulhando atoleiros, enquanto outros cuidavam da boiada.

Levaram seis dias até a Lagoa Tomás José, vencendo 90 km e chegando a 11 de julho. No dia 13, seguiram da Lagoa Tomás José à Barra do Rio Tramandaí, no Oceano Atlântico, e, no dia 15, lançaram-se ao mar com sua tripulação mista de 70 homens. O Seival, de 12 toneladas, era comandado pelo norte-americano John Griggs, conhecido como "João Grandão", e o Farroupilha, de 18 toneladas, comandado por Garibaldi - ambos armados com quatro canhões de doze polegadas, de molde "escuna". Por fim, a 14 de julho de 1839, os lanchões rumaram a Laguna para atacar a província vizinha. Na costa de Santa Catarina, próximo ao rio Araranguá, uma tempestade pôs a pique o Farroupilha, salvando-se milagrosamente uns poucos farrapos, entre eles o próprio Garibaldi.
Enquanto isto, Grenfell continuava a caça à marinha farroupilha. Com o vapor Águia e diversas canhoneiras e lanchões, atacou a base de Camaquã e apreendeu três lanchões e duas lanchas; mas era tarde, pois ali teve a notícia de que Garibaldi já estava longe, a caminho de Laguna.
Com a chegada da marinha farroupilha a Santa Catarina, unindo-se às tropas do exército, sob o comando geral de David Canabarro, foi possível preparar o ataque a Laguna por terra e pela água. A marinha farroupilha entrou através da Lagoa de Garopaba do Sul, passando pelo rio Tubarão, e atacou Laguna por trás, surpreendendo os imperiais que esperavam um ataque de Garibaldi pela barra de Laguna e não pela lagoa. Garibaldi tomou um brigue e dois lanchões, enquanto somente o brigue-escuna Cometa conseguiu escapar para o mar. Laguna foi tomada, com ajuda do próprio povo lagunense, a 22 de julho de 1839. A 29 deste mês proclamou-se a República Juliana, feito um país independente, ligada à República Rio-Grandense pelos laços do confederalismo.
Após conquistar Laguna, as forças farroupilhas continuaram rumo ao norte, perseguindo as tropas imperiais, avançando cerca de 70 km até a planície do rio Maciambu. O avanço foi contido devido a um entrincheiramento das forças imperiais, protegidas pela geografia do Morro dos Cavalos, que dificultava o acesso das tropas farrapas e lhes bloqueava o avanço para o ataque a Desterro, hoje Florianópolis.
Com a tomada de Laguna, praticamente metade da província catarinense ficou em mãos republicanas. A incorporação da vila de Lages, também sob controle rebelde, ao novo estado, levou o território da República Juliana a se estender do extremo meridional até o planalto catarinense. Foi então organizada a República Juliana, sendo convocadas eleições para constituição do governo. Canabarro ficou à frente do governo da nova república até 7 de agosto de 1839, quando foi convocado o colégio eleitoral. Foram eleitos para presidente o tenente-coronel Joaquim Xavier Neves e para vice o padre Vicente Ferreira dos Santos Cordeiro. Como Xavier Neves estava em São José bloqueado pelas forças imperiais, o padre Vicente Cordeiro assumiu a presidência.
Os farroupilhas ainda fizeram incursões navais mais ao norte, chegando a atacar a barra de Paranaguá em 31 de outubro de 1839. Uma escuna e um lanchão farroupilhas capturaram a sumaca Dona Elvira, porém foram combatidos pelos canhões da fortaleza e obrigados a retroceder. A escuna recuou rumo ao norte, porém o lanchão, mais pesado, por ali parou e foi capturado por uma lancha com vinte homens comandada pelo alferes Manuel Antônio Dias, sendo a lancha Dona Elvira recuperada.

O império impôs um bloqueio naval, que buscava estrangular a república economicamente. Garibaldi ainda conseguiu furar o bloqueio com três barcos, capturou dois navios de comércio, trocou tiros com o brigue-escuna Andorinha e tomou o porto de Imbituba. Alguns dias mais tarde retornou a Laguna, em 5 de novembro.
Pouco tempo depois o império reagiu com força total, comandado pelo General Andréa, comandante de armas de Santa Catarina, com mais de três mil homens atacando por terra. Enquanto isto, por mar, o Almirante Imperial Frederico Mariath, com uma frota de 13 navios, melhor equipados e experientes, iniciou a batalha naval de Laguna. Garibaldi fundeou convenientemente seus cinco navios, que se bateram contra os imperiais valentemente, mas sem chances de vitória. Nos navios farroupilhas nenhum comandante ou oficial escapou com vida. O próprio Garibaldi, vendo a derrota iminente, queimou seu navio, a escuna Libertadora, e se juntou à tropa de Canabarro, que preparou a retirada de Laguna. Era o fim da marinha farroupilha.
Os imperiais retomaram Laguna a 15 de Novembro de 1839. Garibaldi fugiu com Ana, que se tornaria conhecida como Anita Garibaldi, uma mulher lagunense casada, cujo esposo alistara-se no exército imperial, abandonando-a, um escândalo para a época. Anita veio a ser sua companheira de todos os momentos, lutando lado-a-lado com Garibaldi tanto nos pampas gaúchos como na Itália, onde é considerada heroína.

 

Retrato de Anita Garibaldi em 1839.

 

 

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