Ruralidades

O resgate do dialeto vêneto já foi feito aqui na região. É um trabalho importante de preservação de um patrimônio cultural ligado à imigração italiana.

E seguindo a mesma estrada tenho colaborado na formatação de um dicionário “juanês” que lembra linguajares da geografia dos campos de cima da serra.

Nos grotões e bibocas, vilas e povoadinhos ainda se ouvem expressões que agridem a gramática oficial e compõe um palavreado especial, meio caipira, meio campeiro. É uma tradição que segue o antigo caminho das tropas, passando pelo planalto meridional, campos lageanos, campos gerais curitibanos e sorocabanos. Não nos damos conta que nos estados do sul, principalmente na área rural, o linguajar das pessoas envolvidas com a criação de gado bovino, eqüino, ovino e muar se mantém vivo e gostoso de ouvir.

 

Às vezes, para os desavisados, é necessária uma tradução como nos seguintes exemplos:

“chuvinha de moiá bobo” que significa um chuvisco que não engana ninguém e não atrapalha a lida;

“tempo morrinhento”, que não se sabe se vai ventar ou chover muito; “matungo véio e seco”, cavalo velho e magro; “voizinha de garnizé”, ironia, humor e interpretação daquele que tem voz fina;

“bassoura”, em vez de vassoura; “chamuscá”, sapecar com fogo.

 

Quando a pessoa é ligeira e quer fazer alguma coisa rapidamente, sai o “de vereda”. No Juá e na Mulada um cara esperto pode ser chamado de “macota”. Para pegar alguma coisa se diz “garrei”. Pode surgir o “garrei nojo”, ou seja, não gostar de tal coisa ou tal atitude. “Vorteada” pode ser entendida como uma volta, um passeio. E tudo é relativo: “vareia”.

 

As imagens criadas são, na verdade, episódios e fatos que faziam parte de um enredo histórico onde as minúcias dos costumes e dos falares foram preservadas como “estouro de boiada, sabe incanziná” (incomodar). Ou aquela expressão mais conhecida “cara de um, fucinho de outro” quando o filho era muito parecido com o pai. A lista é grande... Carrero, pirigo, varejei, gaio, desgranida, amuntá, arçá a perna, boliá a perna, forcejei, estrupício, supetão e varar o rio. Enfim, muitos viventes falam assim em pleno século XXI e rodeados de escolas e universidades...

 

Vai daí, que surgem outros elementos que enriquecem o folclore do campo a fora: “véve sempre tropiando”, “queima coivara com chuva”, “borrachão de boi franquero”, “escuro que nem breu”, “grelei os óio”, “não dá braço a trocê”, “prás mode ingambelá”, “um trote desmanchado”, “inté a vorta”, “não carecia”, “certa laia de gente”, “atarentado de sede”, “tem cosca na língua”, “bate tréla até injuá”, “o burro não si iscóie p’elas oreia”, “furmiga quando qué se perdê, cria asa”, “só fisgava o rabo dos óio nela”, “aquele é um dois de pau”, “foi como chovê no moiado”, “tatú não insquece a toca véia” e o célebre “tá no mato sem cachorro”.

 

Portanto, está na hora dos pelo-duros organizaram também o seu dialeto, “sem botar nem por”. Seria uma rebeldia macanuda!

Luiz Antônio Alves

Escritor

 

 

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